quinta-feira, 9 de setembro de 2010


Faz teoricamente um mês, achei que não voltaria a abrir os olhos diante o sol, com a porção de chuva a transbordar pelo tom castanho, pelas margens brancas. Pensei que nunca mais te iria avistar, nem que corre-se o mundo apenas com esse propósito. De avião não te conseguiria ver, de barco não conseguiria chegar a ti.
A semana passada sonhei contigo, quando acordei julguei que jamais passaria de um sonho e, por momentos, ao questionar tudo, entendi que talvez nada fizesse mais sentido.
Não liguei, segui. Pensei em ti até escurecer, em como seria perfeito se estivesses aqui. Como se houvesse alguma coisa perfeita.
Antes de ontem apanhei o malmequer mais bonito do jardim, e descobri que me queres bem… mas e se queres mais alguém? Tens noção de como isso modificaria a minha vida?
Nunca simpatizei com a partilha, no natal ninguém chegava perto dos meus brinquedos sem que antes eu estivesse farta de os admirar.
Ontem olhei para trás, e como se fosse capaz, tentei vestir lucidez, perceber que pretérito imperfeito não é presente. Abandonei, desisti.
Hoje é fácil de entender que é bom engolir água no mar, só para estar aqui, em cima da ponte, a avistar o porto onde um dia quis apanhar um barco para te procurar.
É bom ter esta(s) história(s) para contar, ainda com tantos segredos por destapar.
Quem sabe um dia apague a idade, e corra até ai a baixo, sem vaidade, apenas com o propósito de me despedir de ti.
Acreditas que te vi assim? Dourado, brilhante? És tão normal. De carne e osso, também perdes o pé no fundo, também pisas este chão.
A adolescência é como a maquilhagem, torna tudo mais purpurino. Agora, em vez de cores vivas, tudo se resume à simplicidade, que ainda estou a conhecer.
Não, já não morro se não meteres conversa comigo, já não choro se passar anos sem te ver. Afinal, és usual. Lembro-me de ti, mas só para me lembrar de mim. Do quão feliz tenho sido.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Tenho sempre a mania que controlo tudo. Ontem descobri que controlo muito pouco. Hoje que não controlo mesmo nada. Como vai ser amanhã?

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Ser


Eu não sei quem sou, de onde vim, para onde vou.
Não sei que chão piso, nunca desvendei o mar por inteiro.
Exalto-me quando mal respiro, e vaguei-o, vaguei-o sem fim nem paragem, sem saber interpretar o meu próprio reflexo, desfocado, nublado. Escrevo numa margem aquilo que não quero esquecer. Depois guardo o caderno, escondo-o, e não existe quem o possa ler. Porque se eu não sei quem sou, mais ninguém pode saber.

It stops today... tomorrow?

Estou tentada a ir para a guerra sem escudo. A enfrentar o escuro sem armas, a cair no chão, a levantar-me sem ninguém me dar a mão.
Estou tentada a lutar pelo que foge, e a correr por um prémio que nunca vai ser o meu.
Pára de me experimentar, que o tempo desliza, o riso transforma-se em sorriso, e a vitória pode acabar com um de nós.
E então?
Vou à guerra, ergo-me no topo, e tu ficas em baixo, sem mim, sem soldados, sem ela, sem coração.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Saudade


Eu não sei se se lembra das histórias que me contava, de como eu acreditava em cada final feliz. Acordar cedo para ver desenhos animados e já o ter à espera, à espera de me ver sorrir. Ouvir parabéns por um desenho mal feito, pintar fora do risco e, mesmo assim, saber que o ia pendurar em frente à secretaria.
Rodar contra o vento, para ver a saia baloiçar, e ter quem me segurasse para não tombar com o balanço imenso, com a velocidade ameaçadora a que queria voar.
O sol esconde-se, e as nuvens que não costumavam estar neste céu, encontro-as constantemente.
Não fazer uma pausa nas vírgulas, comer letras, por os sapatos sujos em cima do sofá da avó, e esperar que ela, cheia de razão, virasse costas para dizer que a razão muitas vezes não importa. Não querer estudar matemática, desarrumar todas as fotografias e tirar os ganchos do cabelo. Olhar para as estrelas e dançar na chuva, com ou sem musica, com ou sem trovoada, com ou sem carros a passar e a projectar água para cima de mim.
Saber que o tinha atrás dos meus ombros, a suportar medos que me pertenciam, todos os meus receios.
Onde esta a mão calorosa e o olhar directo que me abraçavam, diante todos os defeitos, com todas as asneiras dadas de bandeja para se quisesse ver? Onde estão as brincadeiras, as risadas?
Sabe que, por mais rápido que as horas passem, por mais rasteiras que me vão pregando, ensinou-me como escrever a palavra feliz, e isto de escrever é como aprender a andar de bicibleta, não se esqueçe. Veja-me daí, a cantar pela neve ou pelo mar, sobre areia ou gelo, com ou sem multidão a ouvir.
Há dias em que acho que não aguento com saudades. Ainda o posso encontrar atrás de mim?

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Ele


Ele chama-se Francisco e usa roupas de tamanho XL, quando na realidade o número que lhe assenta bem é o L. Usa-as com cores vivas, e procura dar sentido a uma existência saboreada, mesmo sabendo que muita coisa não tem de ter sentido algum.
Ele chama-se Francisco, e descalça-se à beira-mar até quando faz frio, só para sentir a areia molhada.
Olha para os dois lados, contudo, atravessa sem receios, desliza sobre perigo.
Chama-se Francisco, pesquisa novos sons, encontra-se em velhas palavras.
Busca pela verdade, luta contra a saudade.
Chama-se Francisco e ainda fecha os olhos quando o vento lhe bate na cara, continua a acreditar no infinito.
Vaguei-a pela naturalidade, esconde a vaidade. Ergue-se no topo, e raramente cai, mas quando cai, abate-se e fica deitado, no meio de sonhos escondidos, perdidos, mal agarrados, desmaiados.
Chama-se Francisco e tem um dom, faz-me voar alto. Porém, foi em baixo, bem no fundo, que percebi que juntos desfrutamos de uma qualidade: a cumplicidade.

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