segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Saudade


Eu não sei se se lembra das histórias que me contava, de como eu acreditava em cada final feliz. Acordar cedo para ver desenhos animados e já o ter à espera, à espera de me ver sorrir. Ouvir parabéns por um desenho mal feito, pintar fora do risco e, mesmo assim, saber que o ia pendurar em frente à secretaria.
Rodar contra o vento, para ver a saia baloiçar, e ter quem me segurasse para não tombar com o balanço imenso, com a velocidade ameaçadora a que queria voar.
O sol esconde-se, e as nuvens que não costumavam estar neste céu, encontro-as constantemente.
Não fazer uma pausa nas vírgulas, comer letras, por os sapatos sujos em cima do sofá da avó, e esperar que ela, cheia de razão, virasse costas para dizer que a razão muitas vezes não importa. Não querer estudar matemática, desarrumar todas as fotografias e tirar os ganchos do cabelo. Olhar para as estrelas e dançar na chuva, com ou sem musica, com ou sem trovoada, com ou sem carros a passar e a projectar água para cima de mim.
Saber que o tinha atrás dos meus ombros, a suportar medos que me pertenciam, todos os meus receios.
Onde esta a mão calorosa e o olhar directo que me abraçavam, diante todos os defeitos, com todas as asneiras dadas de bandeja para se quisesse ver? Onde estão as brincadeiras, as risadas?
Sabe que, por mais rápido que as horas passem, por mais rasteiras que me vão pregando, ensinou-me como escrever a palavra feliz, e isto de escrever é como aprender a andar de bicibleta, não se esqueçe. Veja-me daí, a cantar pela neve ou pelo mar, sobre areia ou gelo, com ou sem multidão a ouvir.
Há dias em que acho que não aguento com saudades. Ainda o posso encontrar atrás de mim?

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