Em miúda sempre me fizeram confusão as velhotas vestidas de preto. Sapatos, collants, saia, blusa, casaco, mala, tudo da mesma cor – se é que se deve chamar de cor -.
A falta de conhecimento infantil despertava curiosidade.
- Mas porque?
- É uma maneira de representar a dor e a saudade, de esconder a vaidade, de apagar esperanças, homenagear e lembrar.
Hoje entendo, e a confusão que um dia me fez foi-se dissolvendo com as purpurinas e os batons que começaram a encher o armário.
Percebi por momentos as razões entre peças de roupa preta que também eu encontrei no meu caminho, mas momentos são momentos, breves e apagados com facilidade por outros, ou simplesmente pelo stress que nos envolve desde as 7h às 23h.
A confusão voltou imediatamente quando a vi numa manhã de sol radiante assim. De preto. Não só vestida de preto, mas com um coração preto. E quando era pequenina ele era encarnado, quente.
Onde vai dessa maneira? Diga-me o que lhe dói. Queria pintar as ausências que a vida lhe proporcionou com os lápis de cor que um dia me ensinou a usar, sem passar do risco.
Tire esse casaco e lance essa saia! Não percebe que desta maneira chove em mim também? Dê-me a sua mão e transforme um sorriso simples na maior alegria do meu dia.
Venha ao céu comigo, eu sei que ainda sabe voar. Tem olhos verdes e canta com os pássaros que passam pelo jardim. Cantava? Não se apague, senhora vestida de preto, sem coração verdadeiro, sem liberdade para ser feliz. Salte comigo, não caia agora, é a minha vez de dar a mão.
- Mas porque?