segunda-feira, 15 de março de 2010

história(s)


Eles tinham a mesma idade, crianças que sorriam sem razão aparente, que se cruzaram por acaso – se o acaso existir – num mundo cheio demais.
Ela acordava mais cedo ao fim-de-semana para ver a cinderela, planeava ser princesa e voar pelos céus em busca do que a ia tornar completamente feliz. Vestia-se com o arco-íris e o sol predominava nos seus longos e lisos cabelos.
Ele ansiava cada vez mais o real, satisfazia-se com uma tarde a jogar futebol com os amigos, a imitar o que via os mais velhos fazer. A escola interessava-lhe quando tocava para a saída. Juntava-se com o seu eminente grupo – que ainda hoje é o mesmo - para observar, rir, conversar. Já não era a mãe a meter-lhe a roupa na cadeira antes de ir dormir, já não eram os bonecos da televisão que o entusiasmavam.
Descobriram-se um dia, ela a vender um sorriso verdadeiro e caloroso, ele com a indiferença de quem está no topo. Chocaram de imediato numa batalha de personalidades ainda incompletas.
Os caminhos voltaram a tocar-se anos depois, e o sorriso dela, idêntico, mostrou-se superior ao toque arrogante que o caracterizava. Contudo, não chegou para o abater, não chegou para que, sem magia, fosse este o príncipe dos seus filmes de encantar.
Ele não abdica da vaidade, ela não abandona a simplicidade. Porém, com a ajuda de uma fada podiam alcançar o céu. Vê-se no olhar de cada um. No azul frio dele, no castanho quente dela.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

start


Traça pontos no mapa, esclarece-me acerca do destino que nos está destinado.
Não comprei bilhete, contudo, fui transferida para uma viagem sem volta, e logo neste avião que tende a não manter a velocidade, que tão depressa vai pesado como vai leve e solto, cheio de arranques e reviravoltas. Passa por chuvas fortes, encara frentes de ar, ainda assim permanece intacto, sem problemas maiores. Resta(-me) saber como vai ser a aterragem.
Encosto-me ao banco, tento adormecer, percebo que é impossível fechar os olhos aos teus.
Procuro-me e questiono onde estou, tu respondes mas parece-me longe demais para acreditar, para sentir.
É possível ter andado tão poucos dias e já estar acima do céu?

Dois caminhos


Ele foca o olhar no futuro, naquilo que presentemente lhe preenche os dias. Destaca o sorriso antigo e dá-lhe uma razão actual. Sabe as datas mais importantes como a do dia em que lhe pediu para namorar de joelhos, recorda-se melhor delas do que dos trabalhos de casa que insiste em não fazer aula após aula. Lembra-se, porém, não as comemora, não as publica.
Ela anda pelo mundo, de cabelo esvoaçante e olhos claros. Desliza pela vida e não mostra nódoas negras, nem as mais salientes.
Solta o cabelo quando sai de casa, envaidece-se de cada capacidade que lhe foi concebida por deus.
Ele já não a ama como antes, ela joga com a amizade que ambos compraram.
Agora, ele está com outra pessoa enquanto ela comemora o dia se S. Valentim com as melhores amigas. Eles não estão juntos, mas um dia estiveram, e sonharam estar para sempre.
A clareza e simplicidade de cada um contam essa história e ligam-se sempre que passam lado a lado pela rua vazia, que com simples filmes de amor fica tão cheia.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

vais ver


Vou fazer uma revolução liberal! Umas daquelas como fizeram em França, em Inglaterra… só que bem à minha maneira! Vou planeá-la, traçar um rumo no mapa, concretiza-la na perfeição.
Vou fazer uma revolução, sim, mais uma menos uma…
Vou-me revoltar contra o teu sorriso, contra a tua simplicidade, vou fugir do teu brilho e contra-atacar com o meu mistério, calma e lealdade.
Vou deixar-te no chão, passar tranquilamente e dar-te a mão, apenas com o propósito de te apresentar um novo sonho, de te mostrar um novo caminho, de desenhar o teu nome na minha realidade.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

boy(s)

Porque é que olhamos interminavelmente para os despenteados, convencidos e que tem a mania que todas andam atrás deles? Onde é que está o feitiço, a diferença destes para os outros?
Se andar na corda bamba é tudo menos encantador, porque e que nos cativa? E não saber se somos as tais, pois na realidade tem uma porção maior que a desejável por onde escolher… onde está a piada? Encontram-na?
Na verdade pressinto que os homens/rapazes com as calças da levi’s claras e gastas quase a cair, as blusas largas e com uma aparente despreocupação no visual são os que mais nos atraem… tudo bem, podemos dizer “não, ele não é para mim” durante algum tempo, contudo, na realidade, há um rapaz ideal para cada uma de nós? Se houvesse qual seria o sentido de não escolhermos de quem gostamos? Da incessante procura, das ofuscadas certezas que pensamos ter e que abalam tão rápido, tão depressa?
E é possível odiar-se e amar-se alguém ao mesmo tempo? Dizer mal dele, e, no entanto, passar o dia a desejar encontrá-lo? Sonhar com momentos de compaixão e expressar o oposto olhos nos olhos? A lógica não é muita, afinal, só há uma verdadeira explicação, pouco ou nada científica, que explica tanto com tão poucas letras: o amor. O amor é inevitável, impossível de controlar, de esquecer quando tencionamos, de ultrapassar de um dia para o outro, de um mês para o outro, de um ano para o outro – e este tempo passa tão rápido, rápido demais quase regra geral -, quem sabe até por toda a vida.
Não sei se existem amores-perfeitos, se sim, não os conheço, nem sequer sei se conheço ao certo o amor. Já tremi, chorei e senti o meu coração bater forte, tanto, capaz de controlar o resto do corpo, mesmo a mente. Se for isso então eu conheço-o bem, então já o vivi, já o senti… e continuo a sentir. Porque ontem, quando te vi à minha frente, de cabelo despenteado, mochila sem livros lá dentro e uma auto-estima do tamanho do mundo tudo parou, o meu coração bateu cada vez mais forte e o sorriso, o sorriso mais tonto que sei fazer não desapareceu da minha cara por mais voltas que o ponteiro do relógio afirmasse.
Espero por alguém como tu, que me mostre a cumplicidade eterna, o conforto permanente, a confiança, o claro no meio do escuro. Espero por alguém como tu, não por ti.

sábado, 26 de dezembro de 2009

ventos de mudança


Os dias passam e não se regista qualquer alteração.
O vento não muda de direcção, os cabelos não balançam com o vento e os carros continuam a encher as estradas nas horas de ponta. Eu também, também continuo aqui sentada a ver as estrelas como sempre fiz, como me lembro de fazer desde o primeiro dia de luz. As emoções passam, as lágrimas secam.
Ninguém morre de amor, suporta-se e arranja-se força no horizonte mais desconhecido. As desilusões entram no jogo, e quando se manifestam há sempre alguém para nos surpreender, ou para nos lembrar que existe.
Hoje não me apetece ver as estrelas, quero dançar ao som de uma chuva forte.

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