
Eles tinham a mesma idade, crianças que sorriam sem razão aparente, que se cruzaram por acaso – se o acaso existir – num mundo cheio demais.
Ela acordava mais cedo ao fim-de-semana para ver a cinderela, planeava ser princesa e voar pelos céus em busca do que a ia tornar completamente feliz. Vestia-se com o arco-íris e o sol predominava nos seus longos e lisos cabelos.
Ele ansiava cada vez mais o real, satisfazia-se com uma tarde a jogar futebol com os amigos, a imitar o que via os mais velhos fazer. A escola interessava-lhe quando tocava para a saída. Juntava-se com o seu eminente grupo – que ainda hoje é o mesmo - para observar, rir, conversar. Já não era a mãe a meter-lhe a roupa na cadeira antes de ir dormir, já não eram os bonecos da televisão que o entusiasmavam.
Descobriram-se um dia, ela a vender um sorriso verdadeiro e caloroso, ele com a indiferença de quem está no topo. Chocaram de imediato numa batalha de personalidades ainda incompletas.
Os caminhos voltaram a tocar-se anos depois, e o sorriso dela, idêntico, mostrou-se superior ao toque arrogante que o caracterizava. Contudo, não chegou para o abater, não chegou para que, sem magia, fosse este o príncipe dos seus filmes de encantar.
Ele não abdica da vaidade, ela não abandona a simplicidade. Porém, com a ajuda de uma fada podiam alcançar o céu. Vê-se no olhar de cada um. No azul frio dele, no castanho quente dela.

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