segunda-feira, 26 de julho de 2010

Ele


Ele chama-se Francisco e usa roupas de tamanho XL, quando na realidade o número que lhe assenta bem é o L. Usa-as com cores vivas, e procura dar sentido a uma existência saboreada, mesmo sabendo que muita coisa não tem de ter sentido algum.
Ele chama-se Francisco, e descalça-se à beira-mar até quando faz frio, só para sentir a areia molhada.
Olha para os dois lados, contudo, atravessa sem receios, desliza sobre perigo.
Chama-se Francisco, pesquisa novos sons, encontra-se em velhas palavras.
Busca pela verdade, luta contra a saudade.
Chama-se Francisco e ainda fecha os olhos quando o vento lhe bate na cara, continua a acreditar no infinito.
Vaguei-a pela naturalidade, esconde a vaidade. Ergue-se no topo, e raramente cai, mas quando cai, abate-se e fica deitado, no meio de sonhos escondidos, perdidos, mal agarrados, desmaiados.
Chama-se Francisco e tem um dom, faz-me voar alto. Porém, foi em baixo, bem no fundo, que percebi que juntos desfrutamos de uma qualidade: a cumplicidade.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

sem pensar duas vezes

Eu queria poder entrar numa mensagem, sim, numa sms como lhe intitulam. Matar saudade e conhecer todas as letras da palavra liberdade. Navegar por todo o mundo, encontrar o fundo de todos os canais. Conhecer o selvagem e, em cada viagem, grátis e sem complicações, no meio de multidões tornar-me alguém que não eu. Apagar a mentira e a injustiça do vocabulário. Encher a minha capacidade, e, com vaidade contaria como é viver no auge da sólida felicidade.
Procuraria até avistar o mundo nas mãos de alguém, e, depois de guardado, abria as minhas por entre povos e culturas. Sem medos. Sem medo de viver, de sentir, de sair, sem medo de voar.
Levava uma mochila vazia que certamente ficaria cheia. Cheia de sorrisos diferentes, de olhos de cores transparentes, escuras e únicas. Cada tinta, cada sabor, cada textura, cada cheiro.
E um dia, mas só um dia, encontrar-te-ia na rua, bem vestido e diplomático, com 3 carros na garagem e uma vivenda T5 e abraçar-te-ia, com pena. Afinal, o mundo não é teu. O mundo é de quem o conhece, de quem o quer bem, de quem procura e encontra, nem que através de breves momentos, de lembranças, fotografias, sonhos.
Eu queria poder entrar numa mensagem, e só sair quando tudo deixasse de fazer sentido, quando todos os caracteres estivessem ocupados.

domingo, 4 de abril de 2010

Viagens


Mesmo que só por uns dias é bom ter asas completas para voar num céu novo, limpo e sem perigos!

sábado, 3 de abril de 2010

Mas porque?

Em miúda sempre me fizeram confusão as velhotas vestidas de preto. Sapatos, collants, saia, blusa, casaco, mala, tudo da mesma cor – se é que se deve chamar de cor -.
A falta de conhecimento infantil despertava curiosidade.
- Mas porque?
- É uma maneira de representar a dor e a saudade, de esconder a vaidade, de apagar esperanças, homenagear e lembrar.
Hoje entendo, e a confusão que um dia me fez foi-se dissolvendo com as purpurinas e os batons que começaram a encher o armário.
Percebi por momentos as razões entre peças de roupa preta que também eu encontrei no meu caminho, mas momentos são momentos, breves e apagados com facilidade por outros, ou simplesmente pelo stress que nos envolve desde as 7h às 23h.
A confusão voltou imediatamente quando a vi numa manhã de sol radiante assim. De preto. Não só vestida de preto, mas com um coração preto. E quando era pequenina ele era encarnado, quente.
Onde vai dessa maneira? Diga-me o que lhe dói. Queria pintar as ausências que a vida lhe proporcionou com os lápis de cor que um dia me ensinou a usar, sem passar do risco.
Tire esse casaco e lance essa saia! Não percebe que desta maneira chove em mim também? Dê-me a sua mão e transforme um sorriso simples na maior alegria do meu dia.
Venha ao céu comigo, eu sei que ainda sabe voar. Tem olhos verdes e canta com os pássaros que passam pelo jardim. Cantava? Não se apague, senhora vestida de preto, sem coração verdadeiro, sem liberdade para ser feliz. Salte comigo, não caia agora, é a minha vez de dar a mão.
- Mas porque?

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Adoro o museu presente em mim. As representações, as imagens e as palavras. Os dramas, as comedias, os romances.
Às vezes é bom entrar nele, passear pelas estantes horas e horas, noites e noites, olhar com vaidade e lembrar cada promessa cortada, cada traço cada vez mais apagado pelo vento.
É encantador ver-nos daqui, deste museu alto e intacto em mim onde cada peça permanece inteira por mais pó que transporte, onde sentimentos ganharam formas de objectos e objectos provocam mil sensações.
Adoro-o, e, apesar de não ser classificado como arte enriquece-me numa porção imensa e intensa com experiencias e emoções.
Vou preserva-lo e deixa-lo para sempre aqui, o papel na porta só dirá open quando alguém, vestido de sorrisos verdadeiros provar merecer um lugar nele, e tu ainda não demonstraste nada. Nada.

terça-feira, 30 de março de 2010

Indecifrável


Há coisas que eu nunca vou conseguir entender. Não alcanço, não consigo. Ultrapassam-me, superam os meus sentidos, abatem as minhas seguranças.
Não percebo, nem consigo adiantar muito, escrever ainda menos, pois é alto demais para ver, é escuro com escuro, claro com claro, sem contraste e nitidez. Penso, reviro-me na cama, olho no fundo da questão, encontro-me por breves momentos, perco-me por horas infinitas.
Parece que vai ser assim, poucas linhas, escassas palavras, mais uma história imperfeita sem final feliz.

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